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2014/01/21

João Pedro Barreiros analisa novas regras para apanha de espécies marinhas

in Diário Insular, 18/01/2014

"A apanha de espécies marinhas nos Açores tem um novo regulamento que pretende disciplinar os diferentes tipos desta atividade na Região. Já em vigor, a portaria foi aprovada pelo Governo Regional dos Açores, através da secretaria regional dos Recursos Naturais, após audição das associações representativas do setor.

Esta nova portaria estabelece o regime jurídico da apanha de espécies marinhas nos mares dos Açores.

O professor João Pedro Barreiros refere que esta nova portaria tem vantagens e desvantagens. No entender do professor, o período de defeso dos cavacos (01 de maio a 31 agosto) é muito extenso.

Outro aspeto que deveria ser corrigido, na opinião de João Pedro Barreiros, é o uso do cabo dos mergulhadores que não deve exceder os 50 metros de comprimento. "Não pode haver uma limitação. Cada caso é um caso e existem muitas situações diferentes na captura de espécies, onde o mergulhador enfrenta mar alteroso e ventos fortes, necessitando, assim, de mais cabo", disse o professor.

Esta nova regulamentação "é um documento equilibrado, tendo uma vantagem de clarificar as formas de mergulho, mas peca por defeito e poderia ir mais longe no que diz respeito às reservas fixas e à defesa dos cavacos, que deveria ter um período mais curto", adiantou João Barreiros.

Por outro lado, este novo regulamento de apanha de espécies marinhas vem acabar "com uma coisa que estava no limbo, ou seja, vem clarificar o que é mergulho de apneia e mergulho com garrafa, algo que fazia confusão aos mergulhadores", disse o professor.

Esta nova portaria regula a apanha de invertebrados, crustáceos, moluscos e pela primeira vez aparece na regulamentação a captura de ouriços. O professor destaca a inclusão dos ouriços nesta portaria, adiantando que "é um recurso importante e que deve ser gerido".

No que diz respeito à ilha Terceira, as áreas de reserva para a gestão de capturas de espécies marinhas não podem ser efetuada nos ilhéus das Cabras e Fradinhos, ambos numa área envolvente até 40 metros de profundidade.

Monte Brasil, Vila Nova, Ponta dos Carneiros, incluindo o ilhéu do Norte e a Serreta, são áreas onde não se podem fazer capturas de acordo com as coordenadas apresentadas no novo regulamento apresentado na passada semana.

Por outro lado, é permitida a apanha de cracas em toda a costa da ilha Terceira. O novo regulamento, que já está em vigor, estabelece regras para a apanha por mergulho, a apanha com fins científicos, a apanha destinada a estabelecimentos de aquicultura e a aquários, a apanha lúdica e a captura com fins comerciais. João Pedro Barreiros, em jeito de conclusão, diz esperar que este seja o primeiro passo para que haja um comportamento de bom senso e de coerência no que toca à captura de espécies marinhas da Região."

2014/01/06

A conferência de Paulo Monjardino - Microscopia Confocal



Paulo Ferreira Mendes Monjardino, professor auxiliar do Departamento de Ciências Agrárias e investigador no Centro de Biotecnologia dos Açores, proferiu uma conferência hoje intitulada "Potencialidades e Oportunidades da microscopia confocal". Vamos saber do que se tratou a conferência;


- Em que consiste a microscopia confocal?

Tipo de microscopia de fluorescência que permite visualizar com elevada nitidez em 2D ou 3D microorganismos, estruturas celulares ou moléculas em organismos vivos ou inanimados e, embora com maiores limitações, de estruturas não biológicas.

- Quais as suas potencialidades e oportunidades?

Análise de desenvolvimento celular, citogenética, análise da forma de transmissão de doenças e mecanismos de resistência, comunicação celular, análise in situ de expressão genética, entre outras.   

- Que investigação tem vindo a ser realizada no CBA com base nesta técnica?

Diferenciação celular, transmissão de vírus em insectos, cariotipagem, regulação genética.


2013/12/16

Professora Susana Mira Leal eleita diretora do Departamento de Ciências da Educação


Que papel tem tido o Departamento de Ciências da Educação (DCE) no desenvolvimento dos Açores, nomeadamente ao nível do sistema educativo regional?

É indiscutível e inestimável o contributo do Departamento de Ciências da Educação (DCE) e da Universidade dos Açores em geral para o desenvolvimento dos Açores e não apenas ao nível educativo, pois, como sabemos, a melhoria dos níveis de literacia das populações constitui um fator fundamental de desenvolvimento e sustentabilidade social, económica e cultural. O DCE escreveu a história da formação de professores na região nas últimas três décadas, cumprindo com os objetivos e a missão da Universidade dos Açores de contribuir para a qualificação dos quadros superiores da função pública regional. Se hoje a Região tem um quadro docente qualificado nas escolas em muito o deve naturalmente à existência, esforço e persistência da Universidade dos Açores, quer através do DCE quer de outras unidades orgânicas que o antecederam ou que com ele coexistiram durante algum tempo, como o CIFOP (Centro Integrado de Formação de Professores). Nesta matéria, a instituição e o DCE fizeram investimentos significativos, quer no que respeita ao alargamento quer à qualificação do seu quadro docente. O DCE conta hoje com 24 docentes de carreira, todos doutorados, sendo atualmente pontual o recurso a docentes externos.

Acresce que os investigadores do DCE têm dado um contributo significativo para a melhoria do sistema educativo regional, quer correspondendo de forma pronta e disponível às solicitações do governo regional para integrarem e/ou coordenarem equipas de trabalho que têm como missão contribuir para a reflexão, avaliação e melhoria da qualidade dos processos e resultados educativos, quer correspondendo às solicitações de apoio e formação das próprias escolas e docentes da Região, com as quais temos relações de cooperação muito profícuas, quer ainda desenvolvendo investigação que tem privilegiado o estudo de problemáticas relevantes para a Região, quer ao nível do ensino, quer da formação docente e da psicologia educacional, tendo sempre em vista contribuir para o desenvolvimento desta.


Quais os principais desafios que o departamento tem pela frente?

Os desafios que o DCE enfrenta hoje decorrem em larga medida do momento crítico que atravessamos na região e no país, com grande impacto na sustentabilidade financeira da Universidade dos Açores e das instituições de ensino superior em geral. Mas derivam também de outros fatores que afetam o panorama educativo nacional, tais como o decréscimo demográfico e a reorganização da rede escolar e o consequente decréscimo da necessidade de docentes nas escolas, com algum impacto ao nível da empregabilidade dos nossos graduados. Também ao nível da formação pós-graduada, predominantemente orientada para professores, o DCE tem visto diminuir a procura, considerando os cortes de vencimento na função pública, a crescente instabilidade e incerteza relativamente ao futuro dos profissionais de educação, bem como a falta manifesta de incentivos à formação contínua docente. A progressiva internacionalização da investigação e a sustentabilidade da delegação do DCE em Angra também se apresentam grandes desafios do Departamento e da Instituição.


Como se pretende afirmar o DCE no mundo universitário, por via duma clara vantagem competitiva, no que concerne à sua oferta letiva e centros de investigação?

Embora os tempos sejam críticos, a procura dos nossos cursos de formação inicial em Educação Básica e Psicologia tem-se mantido em níveis muito satisfatórios, e estas constituem mesmo duas das licenciaturas da Universidade dos Açores que mais facilmente têm preenchido as vagas na 1.ª fase de candidaturas ao ensino superior, facto que não é de menosprezar. Ainda assim, e em face do que registei atrás, o DCE terá de persistir no esforço de adequação e diversificação da sua oferta formativa que tem vindo a desenvolver (em 2012, criámos a Pós-graduação em E-learning; em 2013, conseguimos a acreditação dos mestrados em Ensino de História e de Geografia no 3.º ciclo do Ensino Básico e no Ensino Secundário e em Ensino de Filosofia no Ensino Secundário; recentemente, abrimos no polo de Angra um CET em Acompanhamento de Crianças e Jovens, e estamos em processo de acreditação de um novo curso de licenciatura em Educação Básica e de Mestrado em Educação Pré-escolar e Ensino do 1.º Ciclo do Ensino Básico, com vista a incrementar a qualidade e adequação da nossa oferta formativa). Impõe-se, pois, neste momento repensar a restante oferta formativa do Departamento, tendo em vista o aumento da sua atratividade e a captação de outros públicos dentro e fora da região. No mesmo sentido irá o esforço de criação de outras formações, que deverá passar naturalmente pelo estabelecimento de parcerias com outras unidades orgânicas da Universidade e com eventuais parceiros externos.


Como perspetiva a presença do DCE no Campus de Angra do Heroísmo nos próximos anos?

A existência de uma delegação do DCE em Angra do Heroísmo constituiu e constitui indubitavelmente um fator promotor da coesão regional e de um acesso mais democrático e justo da população açoriana a formação em educação, pela descentralização de alguma oferta formativa. Contudo, a manutenção da oferta formativa do DCE em Angra não depende de boas vontades; implica custos que, no panorama atual, se tornaram mais difíceis de suportar. Há resoluções a tomar nesta matéria e estas vão, naturalmente, para além da vontade e capacidade de decisão em exclusivo do próprio Departamento. Impõe-se para já uma reflexão aprofundada sobre o assunto que permita encontrar uma solução equilibrada.

2013/12/02

O FIPED Portugal pelos olhos de uma aluna

Jéssica Rocha (esquerda) apresentando "Indicadores de Gestão Pública na Região Autónoma dos Açores" no FIPED Portugal III (2013)

Jéssica Rocha, 20 anos, é finalista da licenciatura em Gestão e membro da filarmónica e da direção da Sociedade Musical e Recreio da Terra-Chã.

Jéssica, participaste no FIPED Portugal III, que decorreu no campus de Angra a 12 e 13 de Abril de 2013 e este ano voltas a participar, desta vez envolvida na organização. O que te levou a participar no ano passado? Como foi a experiência de investigação?

O desafio foi colocado pelo professor e pela minha colega que fizeram o trabalho comigo. Achei interessante logo à partida, mas sabia que daria algum trabalho, e como eu gosto de desafios resolvi aceitar, assim também poderia adquirir algumas competências que o curso por si só não me iria trazer.

Para além de todos os conhecimentos que fui adquirindo ao longo da investigação relativamente ao tema em causa, o mais desafiante foi realmente falar em público, e na presença de investigadores. O que acabou por se revelar uma experiência importante para o desenvolvimento desta competência que eu considero essencial na área da Gestão. Também a “avaliação” que os investigadores presentes fizeram no fim da apresentação, ajudou-me a melhorar para uma próxima apresentação no futuro.


Quanto ao evento em si, presumo que gostaste, já que aceitaste o desafio de passar para a organização. Quais foram os aspectos que mais gostaste? O que gostarias de ver a acontecer neste ano?
Alguns dos aspetos que mais me cativaram foram, por exemplo, a variedade de trabalhos apresentados nas diversas áreas por estudantes de licenciatura ou mestrado integrado, o que demonstra que os estudantes realmente estão a despertar cedo para a investigação e de certa forma contribuir para que um aluno de Gestão, como eu, saiba o tipo de trabalho que os colegas de ciências farmacêuticas, ou de ciências da educação desenvolvem, pois cada vez mais é importante a interação entre os diferentes cursos, e as diferentes áreas de estudo.

Daí que um dos fatores que me levou a passar para a organização, foi tentar cativar os meus colegas de curso para uma eventual participação no FIPED IV, e era realmente uma das coisas que eu gostava de ver acontecer este ano.


Estás a planear apresentar trabalhos de investigação em 2014? É difícil conciliar a investigação com as actividades académicas normais?
Sim, é uma das coisas que eu gostava de fazer.

Quanto à dificuldade de conciliação com as atividades académicas normais, realmente exige um esforço extra, tendo em conta que, tal como aconteceu comigo no ano anterior, o trabalho não está inserido em nenhuma unidade curricular do curso, e neste sentido é uma investigação extracurricular, mas não há nada que não se faça, quando se tem vontade, e quando se gosta, acho que é só uma questão de organização da agenda, e não deixar que as coisas se acumulem.

Finalmente, recomendam o evento aos vossos colegas?
Sim, acho que é uma ótima experiência participar neste tipo de eventos, fazendo uma apresentação, ou mesmo só para assistir. É realmente um ótima experiência, pois permite desenvolver um trabalho de investigação numa área à escolha, permite uma interação com investigadores que nos ajudam e nos transmitem formas de melhorar e permite, tal como eu já disse, interação entre cursos, e adquirir competências de comunicação. Para aqueles que não pretendam desenvolver nenhum trabalho de investigação, a assistência é muito importante, pois o FIPED não é apenas um Fórum onde se apresentam trabalhos de investigação, mas também promove oficinas nas diferentes áreas, mesas redondas, e além disso oferece a noite cultural, onde se pode conviver de forma mais informal.


Jéssica, obrigada pela entrevista e votos de bom trabalho!

2013/11/15

Professor Mário Fortuna - reeleito diretor do Departamento de Economia e Gestão




Que papel tem tido o Departamento de Economia e Gestão (DEG) no desenvolvimento dos Açores?

O DEG tem tido um papel fundamental no desenvolvimento dos Açores quer por via da capacitação de profissionais nas subáreas da economia e da gestão quer através da promoção do empreendedorismo refletido em múltiplos projetos de empresas desenvolvidas por alunos que à sua capacidade técnica aliaram, também a sua capacidade empreendedora. Hoje quase não se encontra uma empresa ou um serviço público que não tenha um antigo aluno do DEG.
À capacitação através da formação dos recursos humanos, adiciona-se como contributo inquestionável do DEG o estudo dos mais diversos temas quer através do trabalho dos docentes quer através das muitas dissertações já concluídas com aplicações aos Açores.

Quais os principais desafios que o departamento tem pela frente?

Os desafios do DEG são, neste momento, a sua adaptação ao momento difícil por que passa a Região e, sobretudo, a Universidade, no sentido de manter a sua sustentabilidade, aspeto que está, em parte, cumprido com a acreditação dos cursos que o DEG assegura há já vários anos e com procura continuada. Resta consolidar e adaptar alguma da oferta pós graduada, evolução natural na qualificação dos recursos humanos na área. Esta formação pós graduada deverá assumir a forma de cursos de pós-graduação, mestrados e doutoramento.

Como se pretende afirmar o DEG no mundo universitário, por via duma clara vantagem competitiva, no que concerne à sua oferta letiva e centros de investigação

A afirmação do DEG tem-se feito sempre através da qualidade dos seus programas, da qualidade do ensino e da qualidade da investigação. A componente do ensino é avaliada pela A3ES e, neste específico, com já referido, temos tido bons desfechos com a acreditação dos cursos principais. Na componente de investigação os resultados foram, também, muito positivos com a avaliação do CEEAplA com a classificação de Muito Bom.
Temos o desafio imediato de avaliação do CEEAplA que esperamos virá a ter um desfecho positivo, mais uma vez.

Após quatro anos de funcionamento do curso de Gestão no Campus de Angra do Heroísmo, qual o balanço que faz desta decisão?

O balanço do curso na Terceira é, no nosso entender, muito positivo. Respondeu-se a uma procura efetiva e consolidou-se o curso com um corpo docente que se vai aperfeiçoando na lecionação do programa já mais do que testado em S. Miguel. Foi uma aproximação positiva ao mercado gerando-se a massa crítica necessária para uma oferta não só positiva para o meio com também rentável para a Universidade. Houve uma combinação virtuosa dos objetivos da Universidade, da comunidade e dos alunos.

2013/11/05

Professor Alfredo Borba - reeleito diretor do Departamento de Ciências Agrárias


Recentemente eleito para um novo mandato na direção do departamento de Ciências Agrárias, quais os principais desafios que tem pela frente?

Neste momento temos dois tipos de prioridades, as imediatas e as prioridades a médio logo prazo. De imediato temos que assegurar o funcionamento do ano letivo, o mais normal possível, depois deste arranque que podemos dizer ter sido catastrófico. A médio - longo prazo, temos que assegurar uma reestruturação do Departamento e a sua inserção dentro do Campus da Angra do Heroísmo, de forma a tornar este forte e dinâmico. O Departamento de Ciências Agrárias não é o Campus, mas é essencial a conjugação de todos os elementos constitutivos desse mesmo Campus, para este ser uma realidade cada vez mais pujante.


Que papel tem tido o DCA no desenvolvimento dos Açores?

Nos seus trinta e oito anos de existência o Departamento de Ciências Agrárias, conseguiu ser uma força que contribuiu, de forma decisiva, para criar a Região tal como hoje a conhecemos, formando a maioria dos técnicos que atuam nos Açores nas áreas da Agricultura e do Ambiente.


A ciência, a investigação e as empresas, é uma ligação que nem sempre é fácil de alcançar. Considerando a investigação que neste momento é desenvolvida aos vários níveis no DCA, perspetiva uma alteração a este nível? Que exemplos gostaria de realçar?

A investigação científica sofre, na maioria dos casos, um forte revés nos últimos dois anos. Toda a investigação ligada à Universidade, isto é, que não estava deslocada para centro exteriores, como a Fundação Gaspar Frutuosos, foi reduzida praticamente a nada. Os investigadores tiveram de fazer um grande esforço de redireccionamento dessa investigação, arranjar novas fontes de financiamento e começar, em muitos casos praticamente do zero. Este facto teve repercussões importantíssimas na produção científica do DCA, na composição das suas equipas de investigação e na sobrevivência de algumas outras. Para o futuro temos que recomeçar, em muitas áreas de novo, arranjar parceiros estratégicos e continuar a ser um pólo de desenvolvimento da área da agricultura e ambiente, como temos sido ao longo dos últimos 38 anos.


Como se pretende afirmar o DCA no mundo universitário, por via duma clara vantagem competitiva, no que concerne à sua oferta letiva e centros de investigação?

O DCA tem que reajustar a sua oferta letiva, nomeadamente na área das Ciências do Ambiente, e estabelecer parcerias estratégicas com outras instituições nacionais. Como o caso recente do protocolo estabelecido com a Faculdade de Ciências e Tecnologias da Universidade Nova de Lisboa, ou de outros que estão em andamento, como o com o Instituto Superior de Agronomia, no que concerne à Arquitetura Paisagística.

No que diz respeito aos Centros de Investigação, vamos assistir a um rearranjo, com a nova candidatura à FCT, prevendo-se a integração de equipas em Centros de outras Instituições de Ensino Superior e a candidatura de um Centro do Departamento, o Centro de Investigação e Tecnologias Agrárias dos Açores (CITA-A).

2013/11/02

Entrevista de Tomaz Dentinho publicada na Universidade Federal Juiz de Fora - Brasil


(entrevista disponível neste link)

Em visita à Universidade Federal Juiz de Fora, pesquisador dos Açores propõe conceber projetos em conjunto

O Programa de Pós-Graduação em Economia Aplicada (PPGEA) da Faculdade de Economia da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) está recebendo o professor da Universidade dos Açores, Tomaz Lopes Dentinho, com o objetivo de trocar experiências e promover aprendizagem mútua. Coordenador do Grupo para o Desenvolvimento Regional Sustentável da Universidade dos Açores e membro do Centro de Estudos de Economia Aplicada do Atlântico, ele coordena o mestrado em Gestão e Conservação da Natureza. Doutor em Gestão Interdisciplinar da Paisagem, Dentinho é atualmente secretário-executivo da Associação Internacional de Ciência Regional (RSAI).

Em entrevista, ele falou da importância das trocas acadêmicas que estão sendo estabelecidas e do que espera de uma possível parceria com a instituição. Comentou sobre o material aplicado em seu minicurso e se mostrou entusiasmando com o momento acadêmico que atravessa o Brasil, especialmente em relação à ciência.

Como surgiu o contato com a Faculdade de Economia?

Conheci o professor do PPGEA, Fernando Perobelli, com base na ligação da Associação Brasileira de Economia Regional (Aber) com a RSAI. A partir daí, surgiu a possibilidade dessa aproximação entre os cursos de pós-graduação em economia das duas instituições.

Como é seu trabalho em Açores e qual foi a proposta para o minicurso?

Em Açores tenho uma pequena equipe de trabalho com alunos de mestrado e doutorado, além de projetos de investigação científica, atuação na área de prestação de serviços e de análises de impacto ambiental. O Fernando (Perobelli) já tinha visitado Açores, mas essa cortesia da UFJF em me convidar para ministrar o curso de modelos de interação espacial com uso do solo foi o primeiro intercâmbio de fato. Basicamente, trabalhamos em cima dos modelos de interação espacial que funcionam à nível das cidades. Para tal, em uma das principais atividades, tentamos, com a pequena quantidade de dados que conseguimos mobilizar nesse curto espaço de tempo, criar um modelo com caráter espacial para São Paulo e trabalhar em cima dele.

Como foi esse trabalho sobre a cidade de São Paulo?

Tínhamos dados da distribuição de empregos e endereços por zonas da cidade de São Paulo, e sua economia gira, em grande parte, em torno da compra e venda de propriedades. Pedagogicamente, conseguimos chegar a resultados teóricos através de programas de computador, mas ainda não temos um modelo pronto que calibre mais profundamente as rendas e os valores de propriedades. A ideia é propôr soluções estruturais para a dinâmica urbana da capital paulista, bem como entender, em termos pedagógicos, qual é a utilidade dos modelos ensinados no minicurso.

Fizemos também uma atividade para avaliar quais são as diferentes posições dos alunos em relação à Juiz de Fora no que diz respeito à demanda da população. No caso do Brasil, esse momento de manifestações é reflexo da má prestação de serviços públicos, acesso a habitação, educação, saúde, transporte. É um tipo de exercício que serve para envolver as várias perspectivas desse assunto e de alguma forma saber como pode solucionar os problemas, pois muitas vezes as pessoas parecem que estão divergentes mas no fundo estão defendendo a mesma coisa.

Em relação à parceria entre os cursos de pós-graduação, quais são as metas para o futuro?

Para o futuro, conversando com o PPGEA, estamos tentando encontrar caminhos para estreitar os laços entre as instituições, por meio de intercâmbios de pessoas e elaboração de projetos conjuntos. Temos grande interesse nessa troca. O Brasil está investindo muito em ciência e possui universidades de primeira linha no cenário mundial. Aqui é o local acadêmico ideal para estabelecermos essas trocas nesse momento. A vantagem comparativa de Açores é a interdisciplinaridade existente entre economia, planejamento, meio ambiente e tecnologia agronômica. Portanto, temos também a acrescentar àqueles alunos que tenham interesse em conhecer nosso curso.

Como andam essas negociações? O que falta para ser concretizada a parceria?

Qualquer tipo de convênio depende de muitas pessoas. No entanto, mais importante do que a questão orçamentária, é descobrir os profissionais que tenham interesse em fazer parte desses projetos, e que tipo de estudos elas estão interessadas em fazer. A partir daí, podemos estabelecer linhas de estudo em conjunto. Tenho alunos de doutorado que gostariam de passar um período acadêmico no país para construir algum material científico que agregue valores à sua formação profissional, e acredito que o mesmo aconteça aqui.

Qual a importância dessa troca?

Para nós já está sendo muito importante. Para começar, em termos de aprendizagem mútua, é muito facilitador termos um espaço que fala a mesma língua, o que torna o ensino mais simples. Apesar das realidades serem diferentes, procurar o que há em comum é exatamente o propósito da ciência. Portanto, a realidade é diferente, mas a estrutura econômica é parecida e o comportamento das pessoas também. É isso que nos permite utilizar os mesmo modelos aqui, em Açores ou na Índia. A diferença de dimensões territoriais representa algum desafio em termos metodológicos, mas que é igual em termos de comportamento humano. Ou seja, Se tratando do objeto de análise, Açores leva vantagem, pois a ligação entre o homem e o ambiente no espaço menor ajuda a nos orientar melhor economicamente. O que temos certeza é que o ser humano é igual e as diferenças existentes só ajudam a universalizar os modelos que temos. No futuro, esperamos conseguir adaptar os estudos feitos em Açores na realidade da escala geográfica brasileira, especialmente no que diz respeito a racionalização do lixo, da água e energia. Acho que estaremos ajudando bastante se conseguirmos trazer essas ideias para cá.

Outra possibilidade dessa aproximação entre os cursos é a oferta de um novo possível campo de trabalho, já que em Portugal está mais difícil encontrar espaço para os mais novos, mesmo se tratando de profissionais qualificados. Acredito que todos sairão ganhando se conseguirmos inserir profissionais de qualidade que estão sem espaço lá, mas que talvez encontrem aqui no mercado de trabalho brasileiro.

2013/11/01

Renasce o Núcleo de Ambiente da Universidade dos Açores


Herlander Lima, nas suas próprias palavras...
Chamo-me Herlander Lima, tenho 22 anos, sou estudante no 2º ano de Guias da Natureza da Universidade dos Açores - Campus de Angra do Heroísmo.

Sou natural de Palmela (distrito de Setúbal) e sempre fui apaixonado por actividades ligadas à natureza, sendo este um dos principais impulsos que me motivou a ingressar no curso. Estou a residir nos Açores desde Janeiro de 2013 (excepto nos meses de Julho, Agosto e Setembro) e sou actualmente estudante, Presidente da Comissão Executiva do NAUA, monitor de escalada d"Os Montanheiros e trabalhador no Hotel Terceira Mar.

Adoro estar na Ilha Terceira, devido sobretudo à proximidade entre as mais diversas actividades. Num raio de 10 km é possível fazer escalada, ir à praia, acampar, fazer um trilho, fazer surf (estou a iniciar aqui na ilha), ir à universidade (claro!), slackline, entre muitas outras coisas.

Herlander faz slackline

Bom dia Herlander. Com os teus colegas, és responsável pelo renascer do Núcleo de Ambiente da Universidade dos Açores (NAUA). Fala-nos um pouco deste grupo, da sua origem, objectivos, e de como surge este novo impulso.

O NAUA surgiu em 2001, através de um grupo de alunos de Engenharia do Ambiente motivado em procurar resolver/promover/sensibilizar para a resolução de problemas ambientas no Campus da Terra-Chã. Nessa altura foram realizadas diversas actividades, destacando as Jornadas do Ambiente.

Este novo impulso e tentativa de reanimação do NAUA, surge por um grupo mais diverso de pessoas, englobando alunos e professores de diversas áreas e etapas de formação, motivados pela tentativa de dinamização do espaço académico e pela aproximação da academia à comunidade local.

O mandato dos actuais membros, deu início no passado dia 17 de Abril de 2013, sendo que na fase inicial demos prioridade ao tratamento de questões burocráticas, pelo que só recentemente, o NAUA atingiu alguma estabilidade neste sentido.

Recolha não oficial de Lixo do NAUA e amigos na Fajã de Santo Cristo (São Jorge) 
Realizámos até hoje o "Festival Ambientarte" (evento dedicado a crianças no Relvão no âmbito do Dia Mundial da Criança); participação na "Feira do Ambiente" na Praia da Vitória. organização do debate "Angra Ambiente que Futuro 2013" (no âmbito das eleições autárquicas); e realização do "Workshop de iniciação à Micologia".

Queremos e consideramos importante "dar a volta" ao "pensamento negativo" que assola o País e a região e obviamente (principalmente) a Universidade dos Açores. Ficar parado e criticar não é a nossa política e pensamos que a adversidade cria o engenho e que os momentos menos bons, como o que vivemos actualmente, são momentos de oportunidade.


Recentemente o NAUA organizou um Workshop sobre Micologia. Qual a motivação para esta iniciativa? Qual é o balanço que faz?

Esta iniciativa surge através de uma conversa via e-mail entre o Rui Carvalho (actual membro do NAUA e bolseiro de investigação na Universidade dos Açores) e o Professor Paulo Oliveira (Professor na Universidade de Évora; Fundador do Grupo de Micologia de Évora; e Formador no Workshop sobre Micologia). Numa abordagem inicial, verificou-se que o número de cogumelos parecia ser inferior à quantidade esperada, dadas as condições propícias de humidade e temperatura. Ao tentar procurar uma confirmação a esta questão, verificou-se que a investigação na área da micologia nos Açores é quase inexistente.

Workshop de Micologia - Foto de Rosalina Gabriel
Neste contexto, surge a vontade de obter respostas e de avançar com o conhecimento científico nesta área para a ilha Terceira e Açores, nascendo a ideia de criar um projeto de investigação totalmente composto por voluntários, que dedicam o seu tempo livre a recolher e identificar cogumelos silvestres. O Workshop surgiu inicialmente para conseguir fundos para a vinda do Professor Paulo Oliveira, cientista com conhecimentos de micologia bem consolidados, com o objectivo de ensinar e incentivar os voluntários interessados para a aprendizagem nesta área.

O balanço foi bastante positivo, sendo que como resultado do workshop foram identificadas pelo Prof. Paulo mais de uma dezena de novas espécies para os Açores, demonstrando que o potencial científico da micologia na região é imenso.

Workshop de Micologia - Foto de Inês Ribeiro
A ideia agora será continuar a trabalhar em colheita e identificações em diferentes datas e habitats, dando continuidade ao que foi apreendido e abrindo as portas para a investigação dos cogumelos nos Açores.


Quais são os planos do NAUA para actividades futuras? Como vêem o papel do NAUA no seio da Universidade dos Açores, e na comunidade mais alargada da ilha Terceira e Açores?

Queremos com o NAUA iniciar uma criação progressiva de sinergias entre a Universidade dos Açores e a comunidade. Acreditamos ser possível fazer mais e melhor e queremos acima de tudo devolver o interesse dos alunos pelo espaço académico, pela aprendizagem e pela participação activa em prol da instituição.

O nosso papel passará por conseguir passo a passo, avançar nos nossos objectivos, sendo prioridades principais a Universidade dos Açores - Campus de Angra do Heroísmo e a comunidade local. Seria óptimo, conseguirmos uma projecção regional no futuro, porém ainda existe muito trabalho a ser feito nesse sentido.

Neste momento estamos a apostar na criação de uma sede para a associação, o que consideramos essencial para o nosso desenvolvimento e afirmação. Temos algumas actividades programadas, mas ainda não calendarizadas, pelo que preferimos avançar com a divulgação quando tivermos informações mais concretas sobre estas.

O nosso calendário nunca está fechado. Estamos abertos a todos os que se interessem na criação de uma Área Temática dentro da Direcção do NAUA para a promoção de actividades que considerem do vosso interesse e que sejam importantes para a ilha Terceira ou para uma comunidade específica. O NAUA dará o apoio possível para a concretização dos projectos. Fica então o convite, basta que os interessados iniciem um contacto para o nosso e-mail (no fim da entrevista), apresentando as suas ideias/projectos.



Podem seguir-nos no facebook através da nossa página página...

E saber mais sobre o NAUA, associar-se, participar, fazer sugestões, entre outros, pelo mail naua@uac.pt.

Novidades brevemente....

Saudações ambientais,
Herlander Lima

Obrigada, Herlander, pela entrevista, e votos de bom trabalho para o NAUA!

2013/10/29

"As dinâmicas nas (re)configurações da cultura organizacional. A casa de Infância de Santo António (1858-2008)" - a tese de doutoramento de Sandro Serpa


Sandro Nuno Ferreira de Serpa, nasceu a 24 de julho de 1974, sendo professor auxiliar desde 11 de Julho de 2013, no Departamento de Ciências da Educação da Universidade dos Açores, onde iniciou o seu percurso académico, como assistente estagiário, em Setembro de 2000.
Leciona várias cadeiras em diversos cursos ligadas à formação e prática profissional de educadores e professores, à teoria das organizações, à sociologia da educação e à investigação, entre outras.

No passado dia 11 de Julho, realizou o seu Doutoramento no ramo de Educação, especialidade de Sociologia da Educação, com a prestação de provas de discussão pública, com crítica e defesa, de uma dissertação intitulada As dinâmicas nas (re)configurações da cultura organizacional. A casa de Infância de Santo António (1858-2008), na Universidade dos Açores, sob a orientação do Professor Doutor Jorge Manuel Ávila de Lima, com um júri presidido pela Senhora Vice-Reitora, Prof.ª Doutora Rosa Goulart, por designação do Magnífico Reitor, sendo vogais o Doutor José Manuel Vieira Soares de Resende, Professor Associado com agregação da Faculdade de Ciências e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, o Doutor Jorge Adelino Rodrigues da Costa, Professor Catedrático da Universidade de Aveiro, o Doutor Fernando Ilídio Silva Ferreira, Professor Associado do Instituto de Educação da Universidade do Minho, o Doutor Jorge Manuel Ávila de Lima, Professor Associado com agregação da Universidade dos Açores, a Doutora Ana Cristina Pires Palos, Professora Auxiliar da Universidade dos Açores, a Doutora Ana Isabel dos Santos Matias Diogo, Professora Auxiliar da Universidade dos Açores e o Doutor Adolfo Fernando da Fonte Fialho, Professor Auxiliar da Universidade dos Açores. 

Como se envolveu na investigação científica?

A investigação científica, além de ser uma necessidade na carreira académica é uma forma desejavelmente rigorosa e controlada de compreender a realidade que nos rodeia. Este controlo, quer a nível do processo de realização, quer, também, a nível do produto final (escrita) sempre me entusiasmou e cativou apesar de reconhecer que apresenta dificuldades que devem despertar o nosso espírito crítico e fazedor.
Foi com esse espírito que realizei o presente doutoramento na procura de apresentar uma contribuição para o conhecimento sobre os processos de formação e de transformação da cultura, enquanto genericamente formas de ser, de pensar e de agir, mais ou menos partilhadas por um conjunto de pessoas de uma organização enquanto unidade coletiva coordenada (no caso em apreço do tipo educativo).   

 Como surgiu o tema da sua tese de doutoramento?

Antes do mais, devo agradecer a possibilidade que me foi dada de estudar a Casa de Infância de Santo António. Em primeiro ligar procurei compreender a longa duração da organização Casa de Infância de Santo António (fundada em 1858 enquanto Asilo da Infância Desvalida). Em segundo lugar, resolvi enveredar por uma temática que articulasse questões educativas com perspetivas organizacionais, tendo uma certa afinidade emocional com a organização, por tê-la frequentado e por ter tido um familiar que fez parte de algumas das suas Direções. Em terceiro lugar, e não menos importante, ao analisar os olhares científicos centrados na cultura organizacional verifiquei que muitos apresentavam um caráter unidimensional, redutor e simplista ao focar a sua formação e transformação.
      
A sua tese chega a algumas conclusões bastante interessantes. Como vê a sua aplicação?

Na tese, através de uma análise diacrónica que abrange 150 anos, procuro demonstrar que existe uma multiplicidade de fatores que ajudam a entender a cultura de uma organização. Verifica-se que a cultura desta organização sofreu reconfigurações, por vezes de uma forma não linear, para as quais concorreram, ao longo do tempo, quer os contactos estabelecidos com o exterior (na procura de recursos, na tentativa de legitimação das finalidades e atividades aí desenvolvidas e, também, nas influências exercidas nos membros da organização, tudo isto em diferentes contextos sociais), quer, ainda, os contactos acontecidos na organização entre os atores individuais e coletivos.
No final do percurso investigativo, compreende-se que as transformações dos contextos, quer internos, quer externos à organização que foram acontecendo se enquadram numa dimensão espaço-temporal socio-histórica. Deparámo-nos com realidades complexas, cuja singularidade idiossincrática tem de ser considerada e verificada empiricamente e que advém da coexistência, com fronteiras fluidas entre si, de cultura, culturas, subculturas, contraculturas presentes na organização, com variações ao longo do tempo.
Por tudo isto, é percetível a possibilidade de aplicação destes resultados noutras organizações desde que se considere que a cultura organizacional, mais do que um estado, é um processo consubstanciado num equilíbrio híbrido e precário de coordenação coletiva, resultante do conjunto de relacionamentos individuais e de relações coletivas, internas e externas à organização, com maior ou menor intencionalidade, e, em consequência, em permanente redefinição e reconstrução.
A compreensão (a relativa e a possível) desta complexidade é que nos permitirá fugir àquilo a que um grande sociólogo clássico Max Weber refere: ”o curso das coisas torna-se natural quando não nos interrogamos sobre o seu sentido”. Ora, nenhuma organização é uma reificação, mas antes é socialmente construída, pelo que implica considerá-las enquanto processo coletivo social de coordenação, que não é automaticamente dirigido, nem previamente determinado, nem neutro ou natural, mas sim inserido num certo contexto social. Daqui resulta a necessidade de superar, quer a reificação da organização enquanto objeto natural e inevitável, fatalista, quer resultante de um procedimento (pré)determinado, quer, ainda, a sua antropomorfização, que teria desígnios e propósitos próprios extrínsecos à ação humana.
Assim, resulta que, ao investigarmos as reconfigurações da cultura organizacional, temos de considerar, sempre, que se trata de um processo social desenvolvido por atores individuais e coletivos, que reproduz, mas também produz, soluções de integração interna e de adaptação externa. A necessidade de conhecer mais e melhor acerca da temática em causa revela-se imprescindível para procurar ter algum domínio no caminho a prosseguir de uma forma consciente.
Vai continuar na investigação? Qual o próximo passo?

Após este trabalho de longo fôlego, penso continuar a investir na relação entre a cultura organizacional e a ideologia organizacional enquanto fator de legitimação das posições assumidas pelos seus dirigentes. Para esse efeito, procurarei realizar uma comparação diacrónica e sincrónica entre organizações de diversos tipos (educativas e empresariais, por exemplo). Isto sem esquecer outras áreas de interesse primordial de investigação tais como as dinâmicas dos processos de formação e de reconfiguração da cultura organizacional em organizações educativas ou, ainda, os processos de construção da identidade pessoal, social, educativa, profissional, organizacional e cultural.

2013/10/26

Um mestrado de sucesso



Tomaz Dentinho é professor auxiliar com agregação da Universidade dos Açores, Campus de Angra do Heroísmo, na área da economia, e está ligado à instituição desde 1986. É o coordenador do Grupo para o Desenvolvimento Regional Sustentável, do Mestrado em Gestão e Conservação da Natureza, e do Doutoramento em Gestão Interdisciplinar da Paisagem. Foi vice-presidente do Instituto de Conservação da Natureza (1996-1998) e director do jornal diário "A União" (2001-2007). Para além do ensino, tem desenvolvido investigação na área da Ciência Regional, Economia do Ambiente e e Economia Agrária.

A 15ª Edição do Mestrado em Gestão e Conservação da Natureza irá começar ainda neste ano lectivo (2013/2015). Como nasceu este mestrado? Quais os seus objectivos? Qual é o segredo para a sua longevidade?

O Mestrado em Gestão e Conservação da Natureza surgiu no seguimento da passagem de alguns académicos por cargos dirigentes do Instituto da Conservação da Natureza. Pensámos nessa altura e pensamos agora que a abordagem à gestão e conservação da natureza provoca grandes falhas de política quando é perspectivada apenas do ponto de vista de uma disciplina, seja ela a ecologia, a geografia, a economia ou a engenharia. Por isso criámos um mestrado interdisciplinar para gestão do território, curiosamente antes de terem aparecido iniciativas semelhantes por todo o mundo. Como de costume tivemos uma reacção negativa das pessoas mais retrógradas do campus e da universidade mas, depois de muito debate e de ter sido aprovado pela Universidade do Algarve também foi aprovado pela Universidade dos Açores


Ao longo destas edições têm formado muitos alunos, de diversas áreas do conhecimento e de diversas regiões do país e de outros países também. Como vê o impacto da formação destes alunos na sociedade?

Desde 2000, tivemos quase 20 edições nos vários cantos do país (Algarve, Tomar, Castelo Branco, Bragança) e dos Açores (Terceira, São Miguel e Pico), com alunos de Portugal, Espanha, Angola, Cabo Verde, Moçambique, Guiné, Brasil e Timor, e cerca de 250 teses de mestrado. Os alunos são economista, biólogos, agrónomos, engenheiros do ambiente, juristas, geógrafos, arquitectos, paisagistas, etc. Este ano temos 11 alunos, 2 dos Açores e 9 de Itália, Espanha, Angola, Moçambique, Timor e Brasil, num formato que penso que terá sucesso no futuro pois tem uma parte escolar com tutoriais à distância e uma parte intensiva de nove semanas presencial. Por outro lado temo-nos mantido competitivos face a outras ofertas não só porque o corpo docente envolvido tem mais formação mas também porque temos inovado na forma de leccionação. Neste momento uma parte considerável dos alunos que passaram pelo mestrado tem um peso relevante na administração pública, na investigação e nas empresas e creio que estão a fazer bom trabalho não só porque desenvolveram mais a vontade de aprender mas também a enorme responsabilidade que tem em mobilizar todo o saber e saber fazer para promover o desenvolvimento sustentável das pessoas e dos sítios.


Além do Mestrado, tem estado, mais recentemente, a dirigir o Doutoramento em Gestão Interdisciplinar da Paisagem. Pode falar-nos um pouco desse projecto?

Fui desafiado pelo Prof. José Manuel Lima Santos do Instituto Superior de Agronomia e pela Prof. Teresa Pinto Correia da Universidade de Évora a criarmos um doutoramento conjunto em Paisagem, Biodiversidade e Sociedade que, com a acreditação, mudou o nome para Gestão Interdisciplinar da Paisagem. Começámos há quatro anos e teremos para o ano os primeiros doutorados do doutoramento embora, como nossos orientandos, já temos alguns doutorados criados no mesmo espírito. Os sonhos são muitos: desde logo usar metodologias interdisciplinares ao território juntando perspectivas que carregam esse desígnio como a economia do ambiente, a ecologia da paisagem e a ciência regional; depois criar um doutoramento reconhecido pela FCT; finalmente criar um doutoramento europeu. As primeiras teses vêm aí e é esse o primeiro produto que podemos oferecer.


Um comentário sobre a interdisciplinaridade...
Acho que a interdisciplinaridade é uma das linhas estratégicas onde a Universidade dos Açores pode ser competitiva a nível mundial. Primeiro porque, como disse Bento XVI recentemente, a interdisciplinaridade é uma necessidade na busca da verdade. Segundo porque a pequenez das ilhas dos Açores facilita a compreensão interdisciplinar dos fenómenos e exige intervenções informadas de forma interdisciplinar. Terceiro porque e não temos escala em cada disciplinar para sermos os melhores nessa disciplina mas temos escala para sermos inovadores nas abordagens interdisciplinares. Temos bons sinais: os que vamos dando em congressos e papers; os que são testemunhados pelos que interagem com os nossos formandos; e os que nos prestações de serviços de e para todo o mundo. Pena é que não nos deixem fazer um mestrado em ciência regional e um doutoramento em desenvolvimento regional sustentável, com pequenas mudanças dos cursos que agora oferecemos. Porque isso nos permitiria almejar um reconhecimento a nível internacional pela Regional Science cuja sede de 4000 cientistas em todo o mundo é na Rua Capitão João de Ávila em Angra do Heroísmo. Neste caso temos o conteúdo mas não nos deixam criar a forma que o mostre melhor.